A frase título desta postagem é, há séculos, atribuída à rainha francesa Marie Antoinette. Embora a veracidade da história seja duvidosa, uma vez que a rainha era vítima de campanhas de difamação ainda em vida, não se pode negar que o comportamento da corte do rei Louis XVI em relação ao povo empobrecido seja completamente congruente com essa lógica: enquanto o preço dos alimentos escalonava por vários motivos, entre eles invernos rigorosos que prejudicavam as colheitas e guerras, a vida na corte seguia seu fluxo normal, com faustos e banquetes de vários dias de duração. Já sabemos como esse imbróglio terminou.
Mais de duzentos anos depois, em terras do além-mar, um presidente populista e pretensioso – sim, estamos falando de Luiz Inácio – profere frase muito semelhante em frente às câmeras sem pudor nenhum.

Em plena luta contra o preço do dólar e com uma inflação desenfreada que recai, principalmente, sobre os alimentos, o autoproclamado pai dos pobres debocha da falta de condições para que o brasileiro compre comida. Vamos substituir a carne pelo quê? Vai mandar ir para a fila do osso também ou recomendará que aprendamos fotossíntese? Será que comer entrou no rol de atividades típicas de burguês safado?
Não bastasse isso, Lula ainda culpa Campos Neto, ex-diretor do Banco Central, pela alta dos alimentos, mesmo que o diretor que ele mesmo indicou não tenha feito nenhuma mudança substancial em relação às políticas monetárias de seu antecessor. Sim, meus amigos: se, nos governos Lula I, Lula II e Dilma I, a culpa sempre era de Fernando Henrique Cardoso, os bodes expiatórios da vez são Bolsonaro e Campos Neto, porque o Partidos dos Trabalhadores nunca é responsável por nada, mesmo tendo governado o país por quase vinte anos e estando no poder atualmente.

Essas declamações não apenas são prova de que Lula odeia o povo – que para ele não passa de um fantoche estulto que pode ser usado e abusado – , mas também de que não se importa em sacrificar um país inteiro desde que agrade os banqueiros que mantêm a ele e a sua corte de parasitas desqualificados vivendo sem preocupações.
Porém não é sobre isso que gostaria de falar: vamos analisar as implicações políticas dessas declarações do presidento painho. Que Lula é um mitomaníaco crente de que todos cairão em qualquer conto do vigário que ele ventilar já fica muito óbvio, mas essa audácia toda pode ter um custo político caríssimo. Não é todo mundo que é alucinado como os petistas de quatro costados, capazes até de oferecer a própria cabeça para que Lula a chute. Quem tem senso de realidade não está nada satisfeito com a situação econômica do país.
Com o povo faminto, declarações como essas caem muito mal, principalmente considerando que a popularidade do presidente despenca a cada nova pesquisa. Somemos a isso o fato de o recém empossado presidente da Câmara – a pessoa com poder para colocar eventual impeachment em votação – ter afirmado que não pode ignorar o PL, atualmente partido com maioria na Casa. A declaração se referia ao pedido de anistia para os presos pelos atentados de 8 de janeiro de 2023, mas o recado foi dado.

Óbvio que o Congresso, agora viciado em emendas parlamentares (que no governo de Bolsonaro eram chamadas de orçamento secreto), vai pressionar o governo para conseguir mais dinheiro. Também fica evidente que Lula fará de tudo o que for necessário para continuar em sua cadeira: as ameaças dos parlamentares são só uma pressão para barganhar o preço do apoio. Contudo, não podemos contar que, mesmo com as torneiras dos recursos públicos abertas, o Congresso vá segurar o mandato de Lula a qualquer preço. Àqueles de memória curta: não lembram que Dilma também tentou todos os meios para comprar o Legislativo e escapar do impeachment? O próprio Lula tentou uma articulação desesperada para salvar o mandato de sua companheira de partido, mas sem sucesso.
Mesmo com boa vontade – e, aqui, entendam derramar dinheiro – por parte do Executivo, o Congresso não segurará um presidente que tiver aprovação baixa e cuja perda do mandato seja vontade popular. Lula já está na zona de impeachment, com menos de 50% de aprovação de sua gestão. A direitona já se articula para chamar movimentos de rua pedindo a cabeça de Luiz Inácio (manifestações que podem ganhar corpo ou não: precisamos observar).
Nesse contexto de instabilidade, qualquer pessoa minimamente inteligente e centrada tentaria acalmar os ânimos e pacificar o povo brasileiro, mas o delinquente de inteligência menor que ocupa o cargo mais importante do país desafia tudo e todos e, em atitude de quem se supõe acima do bem e do mal, debocha da fome de milhões de pessoas, acreditando ser imune a consequências. Em pleno incêndio, Lula faz questão de jogar gasolina na fogueira apenas para provar sua superioridade e ostentar a impunidade frente a um sem-fim de brasileiros com dificuldade até para comer.
Repito: embora não se possa dizer que haja certeza de um impeachment, todas as condições estão postas, e nenhum político está imune a esse processo político.
Para a sorte de Luiz Inácio, mesmo que se concretize o pior cenário para o PT, a única coisa perdida será o mandato (e a mamata da companheirada). Em outras épocas, sua antecessora na arte de soltar frases ruins na pior hora possível acabou perdendo a cabeça – literalmente. Os tempos mudam, mas a crueldade de quem ocupa posições relevantes e odeia o semelhante permanece no mesmo lugar.