Simpatia é quase amor

Nestes dias estava conversando com um amigo e, dada a situação de derretimento de qualquer laço social nos tempos que vivemos, chegamos à conclusão de que, sim, o ditado popular está correto e simpatia é quase amor mesmo.

Praticamente todo mundo é tratado como um contato profissional, um “fazedor de favores”, um patrocinador ou alguém de quem eventualmente se pode tirar alguma vantagem em algum momento, nem que seja uma escuta paciente e empática que provavelmente nunca será retribuída – porque amizade tem duas vias. Com tudo mediado por dinheiro e conveniência, nada (e ninguém) parece ter mais valor.

Para completar o estado de solvência das relações humanas, as redes sociais ainda viraram palco para a criação de personagens totalmente dissonantes da realidade de cada um: as pessoas estão se vendendo em suas melhores e mais falsas versões em uma espécie de leilão virtual de atenção que pode ou não gerar algum benefício material (mas a intenção é que gere). De toda forma, qualquer mínima atenção dada já é erroneamente interpretada como amor por sujeitos esvaziados de afetividade e de qualquer sentido próprios. Para os mendigos de afeto, curtida e visualizações por um olho de vidro artificial já são demonstração de ardente sentimento.

As pessoas mentem e cobram que você acredite na mentira. Não conseguem enxergar quem o outro realmente é porque não enxergam a si mesmas: filtram o mundo com a lente de suas necessidades mesquinhas, transformando tudo e todos em peões manobráveis – e descartáveis – para atingir seus objetivos.

Até arrumar uma conversa despretensiosa nesse grande mercado de carnes baratas se tornou tarefa hercúlea. Amizades, tesouro tão raro, estão praticamente impossíveis. Sobre os relacionamentos amorosos prefiro nem comentar, pois a desgraça de casais unidos em enlaces mais gelados que o inverno siberiano só para não dividir os bens, para manter a conveniência social de casado (ser sozinho é visto como fracasso) ou por medo de começar nova vida se virando por conta própria é notória em sua decadência existencial. Esse tipo de configuração é covardia em estado bruto, deslealdade máxima consigo mesmo.

Só que o mundo é grande e mais complexo do que nossa limitada compreensão pode alcançar, me fazendo acreditar que ainda existe gente fora desse padrão de mentiras e de usos e abusos do semelhante. Talvez não sejam maioria – só um tolo acreditaria que são -, mas ainda estão soltos por aí, ou quem sabe até escondidos tentando escapar da onda de assédios e de oportunismos que esmaga e afoga qualquer tipo de decência humana.

Quem não mente para si não vai compactuar com as mentiras de outrem ou da sociedade em geral. São pessoas que podem não dar o que você quer, mas tudo o que derem será verdadeiro. É gente que vai olhar no fundo dos seus olhos e ver tudo, luz e sombras. Ainda assim, vão escolher levar o pacote completo se gostarem. Vão enxergar aquilo que você é, e não aquilo que gostariam que fosse.

Pode ser que você encontre alguém assim. Pode ser que não. De toda forma, se achar ao menos uma pessoa que lhe seja gratuitamente simpática, que trate bem, que não queira te destruir gratuitamente, que não minta e que não peça que corrobore mentiras e, principalmente, que não te trate como um porquinho cuja única finalidade é fornecer bacon para saciar a fome de outro, valorize. Em tempos de relações disfuncionais, simpatia é quase amor. ❤️

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