A privacidade voluntariamente jogada pelas telas

Desde a popularização do audiovisual, nas décadas de 1930 / 1940, é frequente que celebridades reclamem da falta de uma privacidade que é constantemente violada pelos meios de imprensa: os jornais e tabloides descobriram que o fascínio dos fãs os faz consumir absolutamente tudo sobre a vida dos ídolos, ainda que sejam detalhes da esfera privada que em nada impactam o trabalho pelo qual essas figuras são conhecidas do grande público.

Hoje em dia, sabemos que a noção de privacidade para famosos da indústria cultural, políticos e outras personalidades eminentes é bem mais esvaziada em relação ao que nós, reles mortais, entendemos por intimidade.

Em 1997, Diana, então Princesa de Gales, faleceu em um acidente de carro durante uma perseguição de paparazzi que queriam imagens inéditas dela com o novo namorado – os dois só queriam jantar fora como qualquer casal. Em 2014, durante um dos jogos da Copa do Mundo em Fortaleza, o jogador Neymar se lesionou e teve imagens suas, deitado em uma maca e com dores, gravadas e divulgadas por profissionais do hospital em que estava realizando exames. Em 2022, a popstar colombiana Shakira anunciou seu divórcio do futebolista Gerard Piqué e, no comunicado, solicitou que a intimidade da família fosse preservada, já que o casal é pai de dois filhos à época com menos de dez anos – obviamente o pedido foi totalmente ignorado e histórias sobre traições e amantes rechearam as notícias por muito tempo. Em 2024, outra Princesa de Gales, Catherine Middleton, precisou gravar um vídeo explicando que seu sumiço de eventos públicos se devia ao tratamento de um câncer e pedindo privacidade, já que por muito pouco seu prontuário médico não foi vazado pela imprensa. Também em 2024 o presidente brasileiro precisou passar por uma pequena cirurgia neurológica, e logo o hospital se apressou emitir uma nota assinada pela equipe clínica e em agendar uma coletiva de imprensa para divulgar a situação de saúde do paciente com objetivo de acalmar os ânimos e evitar especulações desnecessárias sobre a saúde de um chefe de Estado.

Todas as pessoas citadas de exemplo acima sabem que o preço das posições que ocupam é a perda de muito de sua privacidade: não podem ir e vir como gente comum e absolutamente qualquer momento de dor ou de fragilidade vira material para alimentar os instintos sádicos das massas.

Nós, simples anônimos, não somos obrigados a passar por isso, felizmente. Ninguém precisa ficar sabendo quando estamos doentes, quando casamos, separamos ou brigamos com alguém. Nossos filhos não precisam passar pelo escrutínio do olhar alheio. Não é nenhum evento digno de nota se nos encontrarem desgrenhados na academia ou no supermercado. Um tombo no meio da rua não será objeto de fotografias nem de divulgação. A insignificância permite manter a intimidade intacta, e isso vale ouro, porque intimidade uma das coisas mais preciosas que possuímos.

E assim caminhava a vida até a popularização das redes sociais. Os famosos e pessoas de interesse midiático logo trataram de usá-las para estreitar a relação com o público. Para eles, é mais uma ferramenta publicitária, faz parte do trabalho.

O problema é que muitos de nós, ilustres desconhecidos, passamos a nos sentir celebridades e, voluntariamente, jogamos nossa sagrada privacidade tela afora no intuito de projetar uma vida e um padrão de consumo que não existem. Ao mesmo tempo, começamos a consumir estilos de vida igualmente irreais de outras pessoas e, principalmente, de influencers, gente cujo “talento” é, na imensa maioria das vezes, monetizar todo e absolutamente qualquer aspecto mundano de suas vidas privadas.

Se o intuito das ferramentas é compartilhar, por que não mostrar algo que realmente gere laços entre as pessoas ou, ao menos, que seja inofensivo? Um interesse em cinema publicamente demonstrado, por exemplo, pode servir de ponte para conhecer e conversar com outras pessoas igualmente dispostas a se dedicar a esse assunto. Mostrar o prato de banana com iogurte que você comeu no café da manhã ou a foto de um pet bonitinho, por outro lado, não tem o condão de gerar laços, mas é algo absolutamente inofensivo que não viola sua intimidade.

A exposição exarcebada das “famílias de propaganda de margarina”, cuja felicidade e o amor sabemos que não existem (aliás, se as pessoas entendessem minimamente de semiótica, nem postariam essas fotos, porque só por elas já é perceptível o distanciamento afetivo entre os casais / membros da família), postagens de fotos de crianças como forma de provar à sociedade que é bom pai / boa mãe, declarações de amor ou felicitações tão gélidas e protocolares que poderiam ter saído da assessoria de imprensa de algum órgão governamental, exposição de signos de status com finalidade de fazer o outro pensar que se tem uma vida que não existe… Tudo isso é a tônica das mídias sociais utilizadas por anônimos incautos e sedentos de aprovação social e de “amor” na forma de curtidas e de visualização de stories. Se é um imperativo postar o que quer que seja para receber validação, então é porque, na vida real, todos esses conteúdos são uma farsa que não se sustenta por si própria.

A nossa vida privada pode não ser uma epopeia digna de biografia. Na maioria das vezes, é comum igual às demais. Ainda assim, para nós ela é preciosa (ao menos deveria ser) a ponto de ser preservada dos olhares vulgares de qualquer um. Por favor, pensemos nisso antes de expor nossos seres amados, nossa intimidade e nossos sentimentos mais profundos ao escrutínio de um olho de vidro. Quem realmente precisa saber de certas coisas mais pessoais vai ficar sabendo por outros meios, porque a vida, o amor e a fraternidade acontecem no offline.

Creio que, mais que nunca, é necessária a parcimônia para delimitar o que é público e o que é privado. É uma reflexão que precisamos fazer todos os dias como forma de resistir a um oversharing tão naturalizado.

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