“Meu dia foi péssimo”, disse, recentemente, um amigo muito querido. Uma sensação rotineira que todos nós já tivemos na vida e que, ultimamente, pode ser mais frequente do que deveria em virtude da quadra histórica turbulenta na qual vivemos.
O que fazer com nossos dias péssimos? Há todo um nicho coach de ortopedia comportamental e moral que defende uma abordagem “gratiluz” dos problemas cotidianos, como se fosse simples ou mesmo possível fingir que adversidades não existem ou não nos afetam. Essa abordagem recheada de positividade tóxica nos priva daquilo que pode ser uma das maiores fraquezas, mas também a maior força do ser humano: a capacidade de sentir. É preciso sentir e reconhecer os incômodos para que, na medida do possível, possamos dar uma destinação adequada a eles.

Outro ponto importante que pode ajudar a lidar com as desgraças que muitas vezes se acumulam e parece que irão nos devorar é aprender (ou ao menos tentar) a difícil arte de deixar ir e de deixar fluir. As grandes revoluções tecnológicas que mudaram drasticamente o cenário social nos últimos séculos nos enganaram com a ilusão de que podemos controlar tudo, mas não há nada mais longe da verdade. Temos controle sobre muito pouco: doenças fulminantes, intempéries naturais, acasos… Nada disso podemos prever ou manipular. Ressentir-se dessa fragilidade só servirá para gerar mais dores e ressentimentos.

Aceitar a inevitabilidade de certos acontecimentos não significa ter uma postura passiva em relação à existência. Ao contrário, penso que é um requisito para acessarmos a maior liberdade que possível: a de se entregar ou não, a de se desesperar ou não. Não controlamos os problemas que se nos avizinham, mas somos dotados da capacidade de não deixar que fagocitem todas as esferas da nossa vida. Assim, manter uma mínima serenidade e não perder a capacidade de amar e ser amado são, a meu ver, a maior forma de resistência e de resiliência frente a situações desafiadoras.

Não me refiro, aqui, ao conceito extremamente limitado de amor romântico, mas ao amor no sentido geral, como uma fruição, une joie de vivre, uma satisfação geral pelo mero fato de existir. Os ouvidos pacientes dos amigos, os abraços acolhedores de quem nos ama, a felicidade gerada por fazer algo que nos dá prazer… Tudo isso são pequenas formas de demarcar que os problemas e as fatalidades, por mais graves que sejam, não são grandes o suficiente para dragar a totalidade de nossa existência.
Um último ponto que gostaria de lembrar a você, que está lendo isso agora e que porventura esteja padecendo de um dia ruim, é que a vida segue em um fluxo onde as coisas têm início, ápice, fim e, então, renascem para recomeçar de uma forma distinta. É praticamente uma lei não democrática da qual tendemos a esquecer sempre que nos fixamos somente no agora, já que a sociedade contemporânea parece ter perdido qualquer capacidade de prospecção. Sei que a vida às vezes dói, a gente sofre, a gente chora. Olhamos para todos os lados e não vemos saída, mas passa, porque absolutamente tudo passa. O bom e o ruim.
Então, se você, leitor, estiver chateado, enraivecido, triste ou cabisbaixo, pense no que te faz feliz. Dedique-se a essas atividades, ainda que só um pouco durante o dia. Não vão fazer com que seus problemas desapareçam nem converterão sua vida em um mar de rosas, mas garantirão que você não se transforme em um megazord de ressentimentos que não tem gosto de viver e só consegue enxergar dor e sofrimento. No meu caso, a fotografia (todas as fotos que ilustram o texto são minhas) ajuda bastante a melhorar o humor. Se o hoje está ruim, o amanhã sempre se impõe como uma promessa, uma esperança que nasce com cada sol que desponta do horizonte.

Ame e persevere, porque passa. Encerro o texto com os belíssimos versos de Ivan Lins:
No balanço de perdas e danos
Já tivemos muitos desenganos
Já tivemos muito que chorar
Mas agora, acho que chegou a hora
De fazer valer o dito popular
Desesperar jamais!