Odete Roitman, tia Celina e o vale-tudo da crueldade feminina

No já longínquo ano de 1988, uma obra de dramaturgia talhava de vez seu nome – e o nome da vilã Odete Roitman – no imaginário nacional: trata-se da telenovela Vale Tudo, escrita por Gilberto Braga, Aguinaldo Silva e Leonor Brassères. Em 2025, para comemorar os 60 anos da TV Globo, está sendo reexibido um remake da novela. Mas não vamos falar de questões dramatúrgicas: gostaria, ao contrário, de usar um dos núcleos ficcionais para refletir sobre um problema que se nos apresenta diariamente sem que, muitas vezes o identifiquemos. Refiro-me à crueldade feminina, tão danosa quanto subnotificada.

Não espero que o querido leitor assista à novela – também não assisto. Vi a versão original no streaming anos depois da exibição (era criança quando foi ao ar pela primeira vez) e, da versão de 2025, acompanho apenas os cortes que aparecem nas mídias sociais. Por tal motivo, resumirei objetivamente quem são os personagens e em qual situação vivem. Peço paciência, mas é necessário para entender o que vem a seguir.

O principal núcleo da novela é composto pela família Roitman, dona de um negócio bilionário de aviões, jatinhos e etc. A matriarca da família é a já citada vilã Odete Roitman. De origem humilde, mas com excelente educação, ela trabalhava na confeitaria da família em Petrópolis quando conheceu um homem muito mais velho e bastante rico. Conseguiu casar – claramente por interesse – e, logo após, providenciou para que a irmã, Celina, também casasse com um excelente partido (💰).

Em 1988, Odete Roitman foi interpretada pela saudosa Beatriz Segall. O olhar de desprezo deixava evidente o quanto odiava os trópicos (e os pobres).
Em 2025, quem dá vida a Odete é Débora Bloch. Detinha continua odiando o Brasil, mas não resiste a um subalterno latino jovem, alto, atlético e bem apessoado 🫦

As duas irmãs enviuvaram muito cedo. Enquanto Odete – usando de inteligência, sagacidade, assertividade e de métodos muitas vezes duvidosos – se dedicou aos negócios do finado marido e multiplicou imensamente a fortuna que recebeu de herança, Celina, sem filhos, focou em torrar o dinheiro do falecido e em criar os dois filhos de Odete (que passou a maior parte do tempo cuidando das filiais da empresa no exterior): Afonso e Heleninha.

Nathalia Timberg, sempre maravilhosa, era a tia Celina de 1988.
A sonsa da tia Celina é interpretada por Malu Galli no remake de 2025. Na versão atual ela pratica jardinagem para combinar com o fato de ser tão carismática quanto uma samambaia e tão empolgante quanto uma cartela de alprazolam.

Afonso é um filhinho-da-mamãe mimado, imaturo e com pouca ou nenhuma experiência de vida no mundo real. Heleninha é uma pintora extremamente sensível (e sem limites) que padece de dependência afetiva, não sabe receber “nãos” e tem problemas com a rejeição materna, descontando toda a frustração no álcool. Vive de internação em internação em clínicas psiquiátricas para reabilitação.

Cássio Gabus Mendes era o mala do Afonso Roitman em 1988: um playboy criado com Danoninho, parquinho de areia antialérgica e Merthiolate que não arde. Tinha uma estética bem farialimer mauricinho e brincava de trabalhar na filial brasileira da empresa da família.
Humberto Carrão interpreta o Afonso Roitman de 2025, que, agora, perdeu a vergonha de não trabalhar e gasta a vida no triatlo e na discursividade politicamente correta (mas continua um banana manipulável). Saiu da estética farialimer dos anos 80 para um cruzamento entre um heterotop que posta foto dos 21km corridos no dia junto com o pote gigante de creatina e um esquerdomacho com uma vibe meio Tribo de Jah, meio militante do MST. E para terminar de desgraçar tudo, ainda enfiaram um relógio branco aí na caracterização.
Renata Sorrah era a icônica Heleninha em 1988.
Paolla Oliveira é a Heleninha de 2025. Como é rica, se embriaga com whisky em vez de jurupinga, catuaba ou vinho São Braz.

Pois bem: Odete é acostumada a que todos – principalmente seus familiares – façam o que ela quer. Muito direta, barganha o preço de todo mundo, oferece vantagens, faz conchavos e qualquer sorte de artimanha moralmente contestável, mas nunca manipula afetivamente alguém (até mesmo pelo fato de ter uma abordagem mais pragmática da vida). Por esse motivo, é odiada e xingada por outros personagens, além de ter se tornado a arquivilã da dramaturgia brasileira.

Tia Celina, por sua vez, tem atitudes tão moralmente contestáveis quanto as da irmã – casou por dinheiro, manipula os sobrinhos quando acha conveniente e criou os filhos de Odete em rédeas frouxas, mesmo sabendo que dessa forma nunca seriam adultos funcionais, só para que continuassem dependendo dela e dando sentido a uma vida aparentemente esvaziada de sentido. Contudo, ao contrário da irmã, tia Celina é amada: uma mãezona maravilhosa, amorosa e compreensiva. A mesma mãezona que, de forma cínica, aceitou participar de uma artimanha para forjar um romance entre Heleninha e um funcionário da empresa da família em troca de Odete pagar por seus móveis. Mas só aceitou, vejam bem, porque era o melhor para a sobrinha. E sobre o pagamento… Bom, tia Celina afirmou que eram os filhos de Odete quem usariam os móveis de toda forma, então nada mais justo que a irmã pagasse por isso. Também é tia Celina, a mãezona, que alterna momentos de leniência em relação ao alcoolismo de Heleninha com esforços gigantescos para que ela continue o tratamento contra o vício. Esforços dramaticamente carregados demais para serem cem por cento sinceros.

Tia Celina é alguém cujo sentido da vida parece vazio e que, por isso, precisa ficar orbitando em torno de alguém, aparentemente para servir, mas na verdade atuando como parasita emocional que carece de outros ao seu redor para se sentir viva. A personagem não teve filhos, mas acabou sendo a mãe dos sobrinhos. Ora, sabemos que a cultura cristã é muito benevolente com mulheres medíocres, sem talento algum e emocionalmente dependes como Celina: basta se encaixar na função de mamãezinha que nada mais será cobrado e, de quebra, ainda será vestida com um véu de sacralidade que a isentará de quaisquer críticas ou cobranças. As mães só agem por amor, e, por isso, podem tudo, até maltratar, atrasar a vida e objetificar aqueles que dizem amar. Celina, cuja existência é medíocre, não procriou, mas virou mãe. Foi a forma, talvez, que encontrou para não parecer tão apequenada frente às inúmeras qualidades da irmã, que, mesmo sendo uma tremenda mau caráter, tinha virtudes e brilho próprio suficientes para não precisar se esconder atrás do papel de mamãezinha sagrada pilar da sagrada família.

Quem mais fez mal a Afonso e a Heleninha: a mãe que diz duras verdades a eles (de forma sádica, vale salientar) e alega, sempre que tem oportunidade, que ambos vivem às custas do dinheiro dela ou a tia boazinha que propositalmente os criou para serem dois imbecis que nunca sairão da aba dela, de forma que Celina nunca fique sozinha e possa ser engolida pelo vazio de sua própria companhia?

As Odetes, vilãs declaradas, não enganam ninguém. As Odetes podem ser odiadas, afinal não fazem questão alguma de fugir das responsabilidades usando uma supostas delicadeza ou sacralidade femininas como escudo. Odetes não são más pelo caráter, mas por dizerem a verdade da qual a maioria quer se esconder. E, ainda que no auge da falta de escrúpulos, são mais honestas que as Celinas, que, muito boazinhas, muito mamães e muito bem intencionadas, prejudicam muita gente e passam por cima de qualquer um – principalmente dos que dizem amar – para tentar suprir a imensa carência afetiva que as corrói por dentro. Para completar, as Celinas nunca são responsáveis por nada: todos os seus atos são permeados por amor e boas intenções, de forma que qualquer crítica é maldosa, agressiva ou insultuosa. Elas jamais assumirão que cometeram erros, pois usam os afetos como uma bússola moral extremamente conveniente e flexível.

Assim como na novela, o mundo real está cheio de Celinas, as sonsas de caráter duvidoso. Elas são o grosso das fileiras da crueldade feminina que manipula, maltrata, tira a paz e atormenta milhares e milhares de pessoas todos os dias sob a máscara de amor e de bondade. As Odetes são poucas, porque até para ser uma mau caráter de ranking mais qualificado precisa ter talento, coisa que as Celinas definitivamente não têm. O mal do mundo são as Celinas, covardes até para assumir as próprias maldades. Quanto à novela, creio que já devem ter entendido que, para mim, Celina é a maior vilã. O resto é história.

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