Em pleno feriado prolongado, encontrei um tempinho para escrever – já estava com saudades!
Falarei de um tema que há muito me incomoda e que, igualmente, desde certo tempo atrai antipatias, mas faz parte do jogo: esconder quem você é para evitar cancelamentos e linchamentos virtuais é uma das piores traições que se pode cometer consigo mesmo. Não há democracia possível sem capacidade de divergência.
Nas últimas décadas, diversos movimentos políticos de minorias ganharam relevo, fazendo com que grupos historicamente oprimidos e alijados de direitos finalmente tivessem condições de vir à cena pública reivindicar o básico. Foram incontáveis os avanços na área de Direitos Humanos (ainda bem!). Contudo, certas parcelas desses movimentos – ainda me recuso a jogar todo mundo no mesmo balaio – extrapolaram os objetivos de lutar por direitos e passaram a exigir afeto, aceitação e até mesmo alguns privilégios.
O movimento woke, que surgiu na comunidade afro-americana como sinônimo de engajamento político e de despertar social (lembram do assassinato brutal de George Floyd por um policial branco?), se expandiu para além da causa negra e ganhou características complicadas à medida em que crescia.
O problema acontece quando pautas que deveriam interessar à cena pública e ao exercício da cidadania – direitos, obrigações, legitimidade e segurança social – são trasladadas para o campo privado: as cobranças de aceitação, de amor e de inserção em relacionamentos amorosos são incluídas, erroneamente, a meu ver, como pauta política.
Ninguém – seja minoria ou não – pode cobrar dos demais amor, aceitação ou desejo para engajamento em uma relação mais profunda. Nem nós mesmos mandamos nos nossos sentimentos: não escolhemos de quem vamos gostar, simplesmente gostamos. Mesmo os ditadores mais sanguinários, como Hitler e Stálin, não foram fascistas o suficiente para achar que poderiam controlar os afetos alheios. Talvez nada neste mundão enorme seja mais indômito e mais intimorato que o amor e o riso (e quiçá por isso justamente essas duas emoções estejam sendo implacavelmente perseguidas pela ala radical do politicamente correto).
Cidadania não é um protocolo especial ou uma atenção distinta das outras: ao contrário, o conceito de cidadania implica em ser tratado da mesma maneira que os demais – com adaptações, caso necessário – mesmo com a incidência da diferença.
Aquele brilho no olhar de alguém quando te vê, o sorriso acolhedor que se rasga fácil só por um simples encontro, a admiração genuína que transborda pelos poros, o desejo efervescente que, não tenho mais onde se esconder, se entrega até pela respiração descompassada, a atração causada por uma beleza estonteante, a estimulação intelectual gerada por uma boa conversa, a simpatia e a solicitude gratuitas de quem foi com a sua cara do nada… Nada disso é direito. De ninguém! Rejeição faz parte da vida humana: nós não gostamos de muita gente, e muitos por aí não gostam de nós. É do jogo. A luta de toda e qualquer minoria não deve ser por afeto, mas, ao contrário, para que todos tenham um tratamento cidadão independente de despertar sentimentos positivos ou não. É impossível o exercício da cidadania quando os direitos estão condicionados à afetividade. Sempre foi essa lógica passional que excluiu os divergentes, e muito me admira que, depois de tantos avanços, vários movimentos estejam lutando para mantê-la (com uma alteração na polaridade) em vez de eliminá-la da cena pública.
As pessoas não têm que te amar, não têm que entender como você se sente, não têm que ser empáticas com suas dores, não precisam ser simpáticas com você e muito menos precisam te aceitar. O que elas têm obrigação é de tratar todos com respeito, mas respeito não é amor, carinho nem amizade.
Muito me preocupa que pautas tão importantes estejam sendo tratadas quase que unicamente como parte da esfera pessoal / afetiva, porque as chances de um efeito contrário – que acarretaria um retrocesso em relação a tudo o que foi conquistado – são imensas. Ninguém suporta palestrinha explicando que seus sentimentos são errados. Se você não gosta de algo, então é racista, fascista, misógino, capacitista e por aí vai… Nenhum afeto é politicamente correto, afinal, assim como nenhum ser humano também é. Todos temos nossas idiossincrasias. Por esse motivo, as não suportam atividades de ortopedia afetiva tentando educá-las para gostar de algo que claramente detestam ou tentado fazê-las se sentir culpadas por gostar ou não de algo, porque tentar mandar nos sentimentos alheios é de uma prepotência sem tamanho.
Para além da audácia de tentar classificar quais sentimentos são certos e errados e de querer dizer como e quem devemos amar, além de ditar aquilo do que podemos rir, a ala radicalizada do movimento woke ainda se vale da estratégia de caracterizar qualquer crítica ou divergência como preconceito. É uma maneira fácil e desonesta de se furtar à tensão das diferenças e de fugir do debate: basta jogar o outro na vala de moralmente condenável para não ter que lidar com os argumentos que ele traz. Muita gente canalha se aproveita desses movimentos cujas pautas originais são legitimas para se esconder atrás da condição de minoria e fazer o que bem quer sem que possa ser criticado.
A tendência, e digo isso com muito pesar, é de que toda essa distorção atraia cada vez mais antipatia e resistência. É possível que em um futuro não tão distante tenhamos retrocessos consideráveis por causa de excessos que poderiam e deveriam ser evitados.
Movimentos sociais devem brigar e fazer barulho por direitos, não por amor. As leis do afeto não são democráticas, e sentimento não se ganha no grito.
Muito provavelmente alguém lerá este texto e, ainda que tenha sido muito clara em minha exposição, dirá que sou preconceituosa. Já tenho costume. Há uns bons vinte anos as maiores violências políticas que recebo, xingamentos assim impronunciáveis de tão abjetos, são justamente de gente autointitulada progressista, mas que não aceita uma única opinião contrária. Na vida política, a democracia precisa da convivência saudável com as diferenças.
Na vida pessoal os encontros mais bonitos também nascem da diferença. ❤️
E quem quer ganhar amor no grito… Não vou dizer exatamente que lamento por essas pessoas, porque ninguém suporta gente chata, mas a tendência é que, pela aversão que despertam, fiquem cada dia mais isoladas socialmente e psicologicamente perturbadas. Talvez o ostracismo e o silêncio sejam o maior castigo para quem tem a audácia de querer dominar os corações alheios.