Vocês podem me acusar de várias coisas. “Exigente”, por exemplo, aceito calada, mas falar que não dou chance a novas leituras ou que me recuso a sair da zona de conforto seria desonesto.
Foi exatamente para sair dos meus padrões literários que voltei a assinar a TAG Curadoria, um clube de livros que te envia, todos os meses, obras (supostamente boas) selecionadas por alguns autores com renome no mercado editorial. Lá pelos idos de 2022, a TAG me trouxe gratas surpresas, como Samarcanda, de Amin Maalouf, A trégua, de Mario Benedetti, e K. – relato de uma busca, de Bernardo Kucinski. Nenhum dos livros estava no meu radar, mas ambos são maravilhosos e valeram cada página lida.
Saltemos no tempo para 2025. Acabei de assinar novamente o clube. Um dos primeiros livros que me enviam é Mundos de uma noite só, de Renata Belmonte. Até me faltam palavras para descrever o quão ruim é o livro. Péssimo. Mal escrito. Clichê. Calma, que vou explicar todos os meus pontos – inclusive com citações.

O livro começa com as memórias desconexas de nossa narradora a respeito de sua infância conturbada e de sua família disfuncional. O início da narrativa é chatíssimo (e o restante do livro se parece com o início, mas calma, que não chegamos nessa parte ainda) e, sinceramente, se você conseguiu passar da página 40, meu amigo leitor, você é um guerreiro. Meus parabéns! No prelúdio, a obra já mostra sua verdadeira face: um texto ruim. Os pensamentos da narradora são extremamente maçantes e as informações não são conectadas a ponto de fazerem o leitor querer continuar com a história: é como se estivéssemos lendo desabafos irritantes e excessivamente adjetivados escritos por uma pessoa anônima e desinteressante.
Outro problema foi que, no decorrer do livro, comecei a sentir um desconforto, porque conhecia aquele estilo de escrita: muita cacofonia jurídica, e nada da beleza literária. Pensei que podia ser ruído meu (tenho formação jurídica) por passar o dia lendo e escrevendo textos burocráticos no trabalho, mas fui checar a biografia da autora e, ao fim, não estava errada. Ela realmente é advogada e escreveu literatura com linguagem que a gente reconhece de longe como própria de peticionamentos, pareceres e coisas do gênero. Não sei da competência dela como advogada. Não me interessa e não sou ninguém para julgar isso, mas como uma leitora, considero que esses vícios de linguagem extinguem os sentimentos de qualquer texto, transformando-os em híbridos malditos, presos entre a literatura e os textos técnicos sem que sejam, de fato, nem um, nem outro. Na página 54 desta minha edição da TAG, temos o seguinte trecho:
Pensava que era possível que nada fosse revelado, agiu de modo negligente, não é preciso que se frequente uma faculdade de Direito para que se saiba que, mesmo quando do erro, ninguém pode alegar o desconhecimento da lei.
Sejam sinceros: isso aí parece linguagem literária pra vocês? Kafka ou Woolf teriam escrito isso? Pois é… Sigamos, porque ainda não acabou.
Além de um texto que nos faz questionar se estamos lendo ou romance ou um recurso especial endereçado ao Superior Tribunal de Justiça, ainda temos a panfletagem militante que mata qualquer expressão artística. Na página 80, temos este trecho:
Fora isso, a ânsia enlouquecida de sua avó por um herdeiro do sexo masculino apenas fazia com que ela endossasse as divisões de papéis que sempre repudiou. Por que nenhuma das três Marias poderia ser treinada para a vida política?
Estamos diante de uma obra literária ou de um discurso de chapa do DCE? A literatura, inúmeras vezes, abordou temas delicados, polêmicos e politicamente complicados, mas, quando isso é feito de forma panfletaria e maniqueísta como no texto acima, esvazia o sentido artístico e ganha ares de peça publicitária ideológica chinfrim. Transformar essas dores em arte sem se perder em palavras de ordem esvaziadas e vulgares é coisa que só gente com muita sensibilidade consegue fazer.
As cenas de sexo são especialmente constrangedoras e parecem saídas da pena de um adolescente de 15 anos de idade, com muito hormônio e poucas palavras na cabeça. Na página 78, temos a pérola:
No dia em que transaram pela primeira vez, a coragem da adolescente [a grafia no livro está como “da” e não como “de”] de Menezes surpreendeu o jovem Grimaldi. Sem dúvidas, ele ficou surpreso com a força sexual daquela menina. Seu corpo belo e bem-feito não parecia temer as consequências daquilo que estavam praticando. Naquele momento, ele se percebeu interessado por aquela garota que, assim como ele, gostava de quebrar convenções e não ligava a mínima para a opinião alheia. E, ao contrário de qualquer previsão que pudesse ser feita, quando soube da gravidez da adolescente Menezes, Luiz Antônio Grimaldi ficou encantado: Planejou: seu bebê, certamente um menino, seria o primeiro membro do partido que pretendia fundar.
Fiquei comovida como um adolescente da conservadora alta sociedade da década de 1940 reagiu com tanto entusiasmo à gravidez da namoradinha de quinze anos. Nem nos dias atuais essa premissa parece verossímil. Até caiu uma lágrima aqui, mas vamos continuar, que o constrangimento não parou ainda. Na página 175, temos a descrição de outro ato sexual:
Diferente da gêmea, cujos quadris tinham espaço suficiente para a realização de uma festa, o corpo de Isabela era proporcional e esguio. Enquanto os seios da outra eram grandes e autoritários, os dela pareciam tímidos e nada ordenavam.
Enquanto tentamos descobrir o que diabos sejam “seios autoritários” (será que algum cirurgião plástico saberia explicar?), informamos que a autora destaca como momento muito traumático da infância de um personagem o fato de ele descobrir que a carne que comemos vem de animais mortos. Sim, é isso aí mesmo que vocês leram. E também temos as colegas de trabalho da narradora afirmando que ela deve ser rica porque anda com livros na bolsa. São trechos que causam muita vergonha alheia em qualquer leitor minimamente arrazoado, porque realmente parecem ter sido escritos por uma criança, tamanha a grosseria da inverossimilhança e do insulto à inteligência de quem lê.
Não bastasse tudo, o livro aparentemente não passou por um revisor, porque está lotado de erros de português. Para citar um exemplo, na página 136 está escrito “[…] não era capaz de imaginar o quão vil as pessoas podem ser”, em um claro e vergonhoso erro de concordância, já que o adjetivo “vil” deve concordar com “pessoas” e, portanto, ser escrito no plural.
No meio de tantos clichês e lacrações, a história não empolga. O final é extremamente previsível e sem graça. Em nenhum momento a inteligência do leitor parece ser respeitada, o que é especialmente irritante. Terminamos de ler com a sensação de que só gastamos nosso tempo com algo de péssima qualidade.
Sei que a autora ganhou prêmios e que várias resenhas consideram o livro como “maravilhoso”, “delicado” e “sensível”, mas deixei alguns trechos aqui justamente para que tirem as próprias conclusões (eu acredito na inteligência de quem vem aqui ler o que escrevo, afinal).
Algumas avaliações falavam do fluxo “complexo” do texto, com idas e vindas no tempo, mas não tem nada de complexo aí não. Podemos dar esse objetivo a Absalão, Absalão, de Faulkner, mas Mundos de uma noite só é apenas mal escrito mesmo. Parece o relato de um caso clínico de esquizofrenia – mas narrado sem a elegância de Freud e de Jung. Também não vi mencionarem que a pluralidade de eus-líricos se manifesta sempre da mesma forma, com o mesmo padrão de escrita. Isso, isoladamente, não é um problema. Crônica da casa assassinada, de Lúcio Cardoso (um dos meus livros favoritos!), também sofre com tal defeito, mas a obra é tão boa que essa pequena incongruência se torna irrelevante frente à magnificência daquele texto. Contudo, em uma escrita ruim como a de Renata Belmonte, qualquer defeito ganha grandes proporções frente à falta de qualidades do conjunto.
Nenhuma avaliação que li sequer citava os inúmeros problemas do livro. Como paguei este desperdício de tinta e de papel com meu próprio dinheiro – ao contrário de muitos críticos e influencers de literatura, que recebem livros gratuitamente e têm relações comerciais com as editoras – , me sinto à vontade para dar a opinião o mais sincera possível, e ela poderia ser reduzida em uma frase: não perca seu tempo com o livro. Depois que a gente acostuma com literatura decente, fica difícil de engolir essas presepadas aí, ainda mais quando são artificialmente incensadas (por puro interesse comercial) para parecerem com um novo clássico imperdível.
Agora, por último, fica o questionamento: o que farei com o livro? Não tenho coragem de doar um texto ruim assim a uma biblioteca. Frisbee para a doguinha? Arranhador para os gatos? Calço para portas? Aceitamos sugestões, mas, de antemão, já agradecemos que os mundos são de uma noite só, porque mais noites que isso o pobre leitor não aguenta.