Há uns tempos tinha vontade de escrever sobre a Catedral Metropolitana de Fortaleza, que considero um aborto arquitetônico de estilo neogótico / eclético em meio aos prédios históricos de estilo colonial que a cercam. Chamo até, jocosamente, de Notre-Dame da Shopee.

A catedral tem uma história bem curiosa: neste mesmo local, séculos atrás, portugueses construíram uma igreja muito rudimentar de taipa apenas para demarcar a importância da fé católica e a presença lusitana nestas terras. A pobre igreja foi vitimada pelas brigas constantes por território travadas entre portugueses e holandeses, mas a memória daquela capelinha permaneceu no imaginário popular. No século XIX, quando Fortaleza já florescia enquanto cidade, foi ordenada a construção de uma igreja de alvenaria no mesmo local da primeira capela.
Como podem ver na imagem abaixo (retirada do Fortaleza Nobre, assim como outras informações desta postagem), era uma igreja linda com bastantes características coloniais.

Mesmo a alvenaria não foi suficiente para dar à nova igreja vida mais longa que a de sua antecessora: no início do século XX, engenheiros detectaram que a estrutura do edifício estava condenada, possivelmente em virtude dos estragos causados pela proximidade com o mar. Depois de muito debate, decidiram demolir a igreja e construir outra no mesmo local. O problema foi que, requentando uma tradição arquitetônica em voga na Europa no final do século XIX, optaram por cometer uma catedral em modelo neogótico. Nós, colônias do além-mar que não vivemos o contexto histórico e social em que o estilo gótico surgiu, agora teríamos uma catedral com essa inspiração, por mais que não combinasse em nada com nossa história nem com o entorno. Em 1938, a igreja anterior foi demolida para que começassem as obras da nova, que duraram mais que as do Rodoanel de São Paulo. O engenheiro responsável pela obra era um francês (très chic!). Em 22 de dezembro de 1978, a nova catedral, no ápice de seu estilo gótico de Taubaté, foi inaugurada com muita pompa.
Hoje permanece impávida e incrustada em meio a outras construções históricas de estilo mais colonial – como o antigo Forte de Schoonemborch, marco da fundação da cidade e atual sede da 10a Região Militar, e o Palácio do Bispo, que sedia a Prefeitura Municipal de Fortaleza.

O fato inusitado é que, mesmo sendo essa aberração arquitetônica incrustada artificialmente no coração da cidade, a catedral foi aceita e adotada pela população. São poucos os gatos pingados que, como eu, acham a discrepância arquitetônica desagradável. A maioria dos transeuntes de uma região que, ao mesmo tempo, abriga hotéis de luxo, sedes de órgãos governamentais e uma das maiores feiras livres do Estado já integrou a igreja de paredes escurecidas à sua rotina. Por motivos desconhecidos para nós, o fortalezense amou essa construção estranha e, assim, a adotou. Mais por carinho gratuito que por mérito arquitetônico, essa agora é a catedral do povo, e só isso importa para quem já considera as torres pontudas parte de nossa paisagem urbana.
Creio que, com as cidades, o mecanismo de adoção funcione como em outros campos da vida: um amor estranho, aleatório, que surge às vezes apartado de qualquer lógica, mas que permanece forte e resiste às intempéries.