A democracia no Apocalipse e a dificuldade de um “caminho do meio”

Hoje, 20 de janeiro de 2025, Donald Trump toma posse como o 48º presidente dos Estados Unidos. Depois de um primeiro mandato iniciado em 2016, Trump se elegeu novamente com promessas totalmente estapafúrdias, como deportação de imigrantes, política externa beligerante e corte a incentivos para energias limpas.

Se, de um lado, sabemos que muitos governantes tomam medidas execráveis como as descritas acima, poucas vezes os vimos vindo a público – principalmente em período de campanha – para prometer as piores ações possíveis. E foram justamente essas promessas que cativaram seu eleitorado…

Em uma situação de crise climática severa, crise econômica cuja piora cada vez mais se avizinha, guerras e desagregação do valor simbólico das principais estruturas sociais, é óbvio que as pessoas padecem de piora nas condições materiais e de desorientação quanto ao sentido de sociedade e até de civilização. Nesse contexto quase apocalíptico, fomentar ódio, eleger bodes expiatórios – geralmente minorias historicamente já massacradas – e vender discursos imbecilizantes (mas extremamente palatáveis) parecem a solução mais fácil para problemas extremamente difíceis e multidimensionais.

Mais perigosos que líderes como Trump, aliás, são aqueles que se sentem autorizados a cometer qualquer tipo de violência ou de excesso por se sentirem salvaguardados por figuras em lugares de poder que normalizam a barbárie. Já vimos os efeitos nefastos dessa espécie de “contágio social” nos movimentos nazifascistas.

Enquanto a extrema direita nada de braçada, a esquerda se perde nos discursos identitários esvaziados. Ao banalizar o uso da expressão “discurso de ódio” para se referir a qualquer discordância política, acaba não tendo ferramentas – ou mesmo credibilidade – para combater os reais discursos de ódio. Quem confiaria em um grupelho que, por exemplo, classifica como transfobia uma mera crítica ao recém inventado e já odiado “gênere neutre” na língua portuguesa? Atordoada por picuinhas, a esquerda perde audiência quando eventualmente tentar falar de pautas sérias e relevantes. A turma do “todes” tem fibra para lidar com extrema direita de verdade ou vai continuar cancelando gente do campo progressista pelas mínimas discordâncias? Particularmente, acredito mais na última opção, porque aparentemente é um pessoal que só de ser chamado de feio já chora, faz nota de repúdio e se desmonta todo. A prioridade não é combater discriminação, é mostrar que tem razão e que é moralmente superior.

No meio dessa terra de ninguém estamos nós, pessoas que consideram esses dois extremos ridículos e só querem viver suas vidas com um mínimo de paz, equilíbrio, direito às garantias individuais e sem censura ou obstáculos impostos pelo governo ou por grupos majoritários. Às vezes acredito que nos sentimos solitários por não encontrarmos ecos em um mundo dominado pela barulheira desagradável de uma extrema direita odiosa e de uma esquerda burra e pretensiosa, mas eu sei que existimos, ainda que poucos e silenciosos. Sem mais delongas, este texto tem como objetivo não analisar a situação política, mas lembrar àqueles que optam pela parcimônia, pelo bom senso e pelo equilíbrio na sociedade e na política que não estão sozinhos. Ainda estamos aqui, resistindo às pressões das duas faces da mesma loucura totalitária.

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