Quando falamos em fotografia, talvez muitos pensem de imediato em retratos que estampam capas de revistas ou em fotos de natureza como as que imortalizaram o talento de Sebastião Salgado.
Contudo, há um outro nicho de fotografia que, particularmente, considero sobremaneira apaixonante: a fotografia de rua. Ora, mas o que haveria de extraordinário na rua? Pessoas atribuladas perambulando com pressa para lá e para cá, vendedores ambulantes, motoristas profissionais, pedestres, casais andando de mãos dadas, trânsito insano e, principalmente, vida real. Gente de verdade que não está nada preocupada em posar para fotos.

É justamente o mundano que faz a rua brilhar! É nas ruas que bate o coração das cidades, e é por meio delas que podemos entender um pouco da dinâmica urbana de cada local.
Certa feita, em uma atividade da graduação – e lá se vão vinte anos que passaram voando! – o professor Jorge Coelho (UERJ), em visita à nossa universidade, exibiu um filme raro mostrando o dia a dia da Berlim entreguerras (nunca lembrei o nome, mas quem souber a referência, por favor, deixe nos comentários). Embora talvez o objetivo principal da exibição da película não fosse esse, ver aquelas imagens me fez repensar como as ruas e a vida de gente comum eram diferentes das fotos icônicas e dos relatos que víamos nos livros de História. Creio que a cidade que todas aquelas pessoas viam e viviam não era aquela que consta das obras dos historiadores. As próprias pessoas comuns não foram devidamente representadas pela estética propagada pela indústria cultural – filmes e publicidades – da época. Como compreendê-las por meio de um recorte tão pequeno e, em alguma medida, bastante artificial como fotos e filmes comerciais ou retratos de políticos e de celebridades?

As pessoas anônimas, vivendo suas vidas, nem sempre estão muito interessadas em lidar com fatos politicamente relevantes que, mais tarde, serão considerados fatos históricos. Também é bastante possível que não tenham tanta relação com a cidade dos folhetos turísticos e das fotos promocionais, porque, no dia a dia, lidam com a parte “feia” e supostamente não fotogênica da urbe. Nem sempre os pontos turísticos são os locais de maior valor afetivo para a população local.

A gente comum não despende tantos esforços – até por falta de condições financeiras – para se vestir irretocavelmente. Não está atualizada com todas as tendências da moda como os ricos e as celebridades: o trabalhador, o estudante, o aposentado, o pedinte e todos esses outros personagens que habitam nossas ruas estão mais focados em garantir a própria sobrevivência. Como poderiam, então, ser representados pelos costumes de uma classe mais abastada, que se vale inclusive de outros códigos estéticos?

Aqueles que desejam conhecer a dinâmica urbana precisam procurá-la justamente nos moradores: vestimentas, comportamentos, modos de agir e pensar da população em geral só poderão ser apreendidos observando gente comum em espaços comuns. O “feio”, certa desordem, a bagunça, o improviso, aquilo que não se recomenda mostrar: todos eles são elementos da cidade real, aquela em que vivemos, mas que quase sempre é esquecida pelos registros oficiais. As pessoas de verdade e as cidades de verdade estão intimamente relacionadas, e compreender como o elemento humano se relaciona com ruas, muros e edifícios pode dizer muito sobre a dinâmica urbana, assim como a estruturação da urbe afeta diversas dinâmicas sociais e individuais.

As ruas – belas ou não – e as pessoas comuns merecem ser fotografadas. Nós, a gente anônima que compõe as grandes massas, temos o direito de deixar registrado – quem sabe até nos anais da História – que a cidade não é só a área nobre e que as pessoas não são apenas as midiática ou politicamente relevantes. Por trás de cada espaço “não fotografável” há uma dinâmica e por trás de cada rosto comum há uma história de vida.
Talvez a fotografia de rua seja uma ferramenta para lembrar que existimos e que somos dignos de registro, mesmo se fora de uma estética asséptica e elitista.
