A vida pulsa no coração das ruas

Quando falamos em fotografia, talvez muitos pensem de imediato em retratos que estampam capas de revistas ou em fotos de natureza como as que imortalizaram o talento de Sebastião Salgado.

Contudo, há um outro nicho de fotografia que, particularmente, considero sobremaneira apaixonante: a fotografia de rua. Ora, mas o que haveria de extraordinário na rua? Pessoas atribuladas perambulando com pressa para lá e para cá, vendedores ambulantes, motoristas profissionais, pedestres, casais andando de mãos dadas, trânsito insano e, principalmente, vida real. Gente de verdade que não está nada preocupada em posar para fotos.

Fotografia feita por mim em janeiro de 2025

É justamente o mundano que faz a rua brilhar! É nas ruas que bate o coração das cidades, e é por meio delas que podemos entender um pouco da dinâmica urbana de cada local.

Certa feita, em uma atividade da graduação – e lá se vão vinte anos que passaram voando! – o professor Jorge Coelho (UERJ), em visita à nossa universidade, exibiu um filme raro mostrando o dia a dia da Berlim entreguerras (nunca lembrei o nome, mas quem souber a referência, por favor, deixe nos comentários). Embora talvez o objetivo principal da exibição da película não fosse esse, ver aquelas imagens me fez repensar como as ruas e a vida de gente comum eram diferentes das fotos icônicas e dos relatos que víamos nos livros de História. Creio que a cidade que todas aquelas pessoas viam e viviam não era aquela que consta das obras dos historiadores. As próprias pessoas comuns não foram devidamente representadas pela estética propagada pela indústria cultural – filmes e publicidades – da época. Como compreendê-las por meio de um recorte tão pequeno e, em alguma medida, bastante artificial como fotos e filmes comerciais ou retratos de políticos e de celebridades?

Foto feita por mim em dezembro de 2024

As pessoas anônimas, vivendo suas vidas, nem sempre estão muito interessadas em lidar com fatos politicamente relevantes que, mais tarde, serão considerados fatos históricos. Também é bastante possível que não tenham tanta relação com a cidade dos folhetos turísticos e das fotos promocionais, porque, no dia a dia, lidam com a parte “feia” e supostamente não fotogênica da urbe. Nem sempre os pontos turísticos são os locais de maior valor afetivo para a população local.

Foto feita por mim em dezembro de 2024

A gente comum não despende tantos esforços – até por falta de condições financeiras – para se vestir irretocavelmente. Não está atualizada com todas as tendências da moda como os ricos e as celebridades: o trabalhador, o estudante, o aposentado, o pedinte e todos esses outros personagens que habitam nossas ruas estão mais focados em garantir a própria sobrevivência. Como poderiam, então, ser representados pelos costumes de uma classe mais abastada, que se vale inclusive de outros códigos estéticos?

Foto feita por mim em dezembro de 2024

Aqueles que desejam conhecer a dinâmica urbana precisam procurá-la justamente nos moradores: vestimentas, comportamentos, modos de agir e pensar da população em geral só poderão ser apreendidos observando gente comum em espaços comuns. O “feio”, certa desordem, a bagunça, o improviso, aquilo que não se recomenda mostrar: todos eles são elementos da cidade real, aquela em que vivemos, mas que quase sempre é esquecida pelos registros oficiais. As pessoas de verdade e as cidades de verdade estão intimamente relacionadas, e compreender como o elemento humano se relaciona com ruas, muros e edifícios pode dizer muito sobre a dinâmica urbana, assim como a estruturação da urbe afeta diversas dinâmicas sociais e individuais.

Foto feita por mim em dezembro de 2024

As ruas – belas ou não – e as pessoas comuns merecem ser fotografadas. Nós, a gente anônima que compõe as grandes massas, temos o direito de deixar registrado – quem sabe até nos anais da História – que a cidade não é só a área nobre e que as pessoas não são apenas as midiática ou politicamente relevantes. Por trás de cada espaço “não fotografável” há uma dinâmica e por trás de cada rosto comum há uma história de vida.

Talvez a fotografia de rua seja uma ferramenta para lembrar que existimos e que somos dignos de registro, mesmo se fora de uma estética asséptica e elitista.

Uma senhora muito linda que fotografei em dezembro de 2024

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