Estaríamos vivendo um novo fenômeno de histeria coletiva?

Ontem, um domingo, decidi ir ao supermercado comprar ingredientes para as refeições da semana – o que, em si, já foi um erro, pois toda dona de casa com ao menos dez centavos de juízo sabe que os hortifrutis disponíveis aos fins de semana são sempre os piores. Contudo, não foram a inflação dos alimentos ou a qualidade duvidosa das folhas de alface que me assustaram.

Nesse pouco tempo de mercado, aconteceram três fatos bizarros: primeiro, um rapaz que claramente estava me vendo (eu estava ao lado dele) pisou deliberadamente no meu pé. Com força! Depois, em uma conduta típica de morde-e-assopra, me olhou com um sorriso forçado e uma expressão simpática pedindo desculpas. Com a expressão facial, pedia um pouco mais: queria atenção e, quiçá, puxar algum assunto. Como já sabia do que se tratava, pratiquei o bom tratamento de silêncio e segui meu rumo sem sequer responder a ele ou olhá-lo.

Em um segundo incidente, uma senhora que havia há pouco passado por mim e que estava na frente do meu carrinho praticamente se jogou sobre ele, quase se debruçando. Puxei o carrinho para trás e segui, também sem mais delongas.

Por fim, um senhor com blusa de igreja tentou puxar assunto comigo falando da palavra de Jesus (sou ateia, embora ele não tivesse obrigação de saber disso). Dei uma resposta mal educada e ignorei.

Antes de analisar o que detectei de comum nas três situações, vamos deixar claro que não se trata exatamente de mim: eu era uma estranha para os três. Pensar que qualquer dessas ações pudesse ser efeito do meu carisma ou de eventual sex appeal causando arroubos afetivos nos outros também seria delírio digno de quem acha as historinhas de Colleen Hoover e afins super verossímeis. Nem tudo é sobre nós e o mundo não é um delírio erotomaníaco (ao menos não deveria ser).

O que essas três pessoas claramente queriam era atenção, mesmo que fosse de uma estranha no supermercado (e foi por isso que agi de maneira um tanto quanto grosseira e evitei até mesmo contato visual com os três: minha vida não está à disposição de sintomas de adultos disfuncionais desesperados pela validação do olhar alheio). Não era sobre mim: podia ser qualquer um. Eles só precisavam de audiência para que sua existência fosse minimamente reconhecida.

Juntem a isso o fato de uma considerável parte das pessoas fazendo compras ter um olhar ora perdido, ora maníaco. De toda sorte, pareciam extremamente alheias à realidade. Fiquei assustada com aquela visão, porque lembrou muito as cenas que vemos quando entramos em alguma instituição psiquiátrica. Pareciam um bando de zumbis à deriva e em busca de uma boia onde se segurar.

Lembrei, então, que Carl Gustav Jung, criador da Psicologia Analítica, não só analisou esses fenômenos coletivos como, por meio deles, conseguiu prever a ascensão do nazismo e o desastre que foi a Segunda Guerra Mundial. Não se trata – como o próprio Jung explica – de vidência, xamanismo ou qualquer coisa de ordem sobrenatural, mas de uma simples sensibilidade a mais para entrar em contato e entender as manifestações inconscientes dos indivíduos e também das multidões.

Se aquilo que é inconsciente sempre acaba vindo à luz do dia, não é de se espantar que a coleção de esqueletos no armário que as pessoas costumam esconder com tanto afinco eventualmente emerja de forma disruptiva em formato de comoção social sob determinadas circunstâncias.

Em uma coletânea de textos intitulada “Presente e futuro”, publicada originalmente em 1957, Jung fala sobre os perigos do contágio psíquico que ocorre em massas ressentidas e sem esperança de futuro – o que parece ser nosso caso hoje, embora não necessariamente por causa do mesmo contexto que gerou as manifestações coletivas das décadas de 1930 e de 1940.

Para resumir de forma didática o pensamento do autor, Jung entende que, quando não se passou por um processo de individuação psicológica, no qual o sujeito sabe quem é, integrando inclusive seus conteúdos inconscientes à sua constituição subjetiva, tendemos a usar os sentimentos das massas e o aparato simbólico que compõe as convenções sociais como bússola subjetiva e existencial. Em outras palavras, quando o indivíduo não sabe quem é, acaba aceitando ser que o mundo entrega a ele, em um típico movimento de manada. Se esse movimento de massa é ressentido, animalesco e até mesmo destrutivo, esses indivíduos que não construíram uma barreira clara entre quem eles são e quem o mundo quer que eles sejam tendem a ser contaminados (numa espécie de contágio psíquico) pela loucura das massas.

Se pensarmos que, hoje, praticamente todas as grandes próteses subjetivas simbólicas – Estado, família e trabalho – estão em frangalhos, é fácil entender o olhar perdido e a demanda de validação daquelas pessoas no mercado. Se elas não sabem quem são e se os sistemas simbólicos que as amparava está aos pedaços, óbvio que sentirão um esvaziamento subjetivo que tentam preencher, ainda que parcialmente, com a validação do olhar alheio.

Resta saber para onde essas massas em desespero por algo que dê a elas uma condição de individualidade ou de existência arrastarão o mundo. É hora de se segurar em si mesmo (aqueles que podem fazer isso) e esperar o tsunami chegar, porque, pela amostra grátis que estamos tendo, já dá para perceber que a derrocada vai ser feia.

PS.: para quem eventualmente quiser saber mais sobre o assunto, recomendo a leitura dos quatro volumes de “Civilização em mudança”, de Jung. “Presente e futuro” é apenas o primeiro deles. Freud também aborda, embora sob a perspectiva da psicanálise, a loucura das massas em textos como “O mal-estar na civilização” e “Psicologia das massas e análise do Eu”.

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