É assim que acaba… (comigo!)

Sábado é um dia que geralmente reservo para leitura, séries, passeios fotográficos ou algum jantarzinho mais gostoso (sozinha ou com quem eu gosto). Como não li nada em 2025, decidi dar uma chance a um livro daqueles para os quais geralmente torço o nariz: “É assim que acaba…”, da autora best-seller Colleen Hoover. Absolutamente todo mundo ama os romances dessa mulher. Ela é uma coqueluche literária praticamente hegemônica entre o grande público. O romance foi até adaptado para o cinema ano passado – não assisti ao filme – e, agora, está gerando uma história muito mais interessante nos bastidores com as brigas entre Blake Lively, que interpretou a protagonista, e Justin Baldoni, diretor e protagonista masculino. Essa novela da vida real sim estou acompanhando com mais afinco, e provavelmente foi isso que despertou minha curiosidade para ler o livro no qual o roteiro se baseou. Vai que é uma obra muito boa e eu estou deixando de apreciar por puro preconceito? Já aconteceu algumas vezes na vida, que adora nos humilhar fazendo morder a língua, então calcei as sandálias da humildade e me joguei no bendito “É assim que acaba…”.

Vamos à resenha, Brasil: não vou enganar vocês dizendo que consegui ler tudo. Até tentei ser uma pessoa mente aberta, espiritualizada e de bom coração, mas não tem a menor condição com esse livro. Acho que não aguentei nem cinquenta páginas, mas vou explicar aqui os motivos. “Ah, mas você assiste a doramas ruins e lê livros de procedência duvidosa quando quer só passar o tempo”. Sim, com certeza. Mas esses pelo menos não querem passar a impressão de que são muito profundos ou envolventes, e mesmo sendo muito clichês, respeitam minimamente a inteligência do leitor. Até para escrever groselha tem que ter algum talento, convenhamos.

A partir deste momento, já podem ler a resenha usando como trilha sonora aquela música baixaria cuja letra fala em “tem medo de nada, gosta do perigo”, porque combina bastante com a prosa de Colleen Hoover, cujo texto parece ter fobia ao bom gosto e ao bom senso, que devem ter comprado passagem só de ida para Katmandu depois de ter contato com qualquer coisa escrita por essa mulher. E a burra, ao fim das contas, fui eu, que ainda dei chance a tal porcaria.

Vamos lá: começamos a narrativa com uma cena da nossa protagonista, Lily Bloom, de 23 anos, que está em cima de um telhado altíssimo olhando pra baixo depois de fazer um discurso desastroso no enterro do pai, mas ela não pensa em se matar, vejam bem. Mesmo afirmando que não pensava em se jogar, a protagonista reflete bastante sobre o que aconteceria se, quiçá, ela despencasse sacada abaixo. Depois desses maravilhosos parágrafos em que não entendemos a lógica da autora nem a de Lily e que mais parecem o relato clínico de um surto esquizofrênico, surge um estranho no telhado, e aqui a coisa começa a ficar mais vexatória (vou até pegar um chazinho de camomila pra terminar de escrever isso aqui, hein?), com uns diálogos dignos de redação da quinta série, e falo isso sem nenhuma intenção de desrespeitar as crianças da quinta série.

O estranho alterna surtos de violência chutando vigorosamente algumas cadeiras com uns tragos do baseado que tirou do bolso. Em algum momento, o moçoilo nota a presença da mocinha. Sintam a vergonha alheia comigo neste trecho: “Ele está a uns três metros de distância, mas a luz das estrelas é suficiente para que eu enxergue seus olhos observando meu corpo sem revelar um único pensamento. Esse cara sabe esconder o jogo; estreitando olhos e comprimindo os lábios, ele parece uma versão masculina da Mona Lisa”. Não sei vocês, mas eu teria vergonha de ler uma coisa dessas em voz alta na frente de outras pessoas, mas sigamos.

Em um diálogo tão nonsense quanto as reflexões de “quero-me-matar-mas-na-verdade-não-quero” de Lily, o Mono Liso Tribo de Jah com olhos de Thundera que enxergam até no escuro começa um diálogo (des)memorável perguntando logo de cara o nome da protagonista jamanta, que, em poucos minutos, aponta até o prédio em que mora para um desconhecido que curte puxar um beck e que claramente tem problema para controlar a agressividade.

E falando em emoções, a emocionada da vez parece ser Lily, que descreve o estranho no teto como “[…] lindo. Tem mãos cuidadas, cheira a dinheiro e parece ser bem mais velho que eu. […] Está vestindo uma camisa casual da Burberry, e acho que nunca estive no radar de alguém com dinheiro para, casualmente, comprar uma dessas.” Nesse e em outros trechos, a característica mais especial do mocinho parece ser o fato de ter dinheiro, já que são feitas inúmeras referências ao poder aquisitivo do rapaz. Essa lógica segue a toada de praticamente todos esses romances desde “Cinquenta tons de cinza”: o principal atrativo de um homem é a grana. A classe operária não ama e nem é amada nesses livrinhos que parecem refletir a fantasia de muitas mulheres hoje em dia. Como mulher, acho a normalização desse tipo de concepção bem problemática, inclusive do ponto de vista moral, mas aparentemente tô nadando na contracorrente da maioria, então vou deixar o assunto quieto por enquanto (mas não sem antes de dizer que, em vez de fazer toda uma pirotecnia para romancear interesse puramente financeiro era melhor admitir logo que estão só atrás de homem que banque boa vida).

Ora, mas de onde vem o dinheiro de nosso mocinho violento e Zé Droguinha? Lily burralda gold digger descobre que Ryle Kincaid – esse é o nome do infeliz – é um residente de neurocirurgia que mora com uma irmã casada com um programador que comprou um andar inteiro em um prédio caro (óbvio que a mocinha jeca é bem esperta na hora de detectar signos de bonança financeira). Os dois seguem em mais diálogos sofridos:

– Não acho um pouco de reserva ruim – avalia Lily – Nem sempre as verdades nuas e cruas são bonitas. […]

– Verdades nuas e cruas – repete ele. – Gostei disso.

Pois é, povo brasileiro: nossos mocinhos consideram a expressão “verdade nua e crua”, mais batida que tambor do Olodum em dia de ensaio no Pelourinho, como algo extremamente brilhante e filosófico, digno até de reflexão. Fico me perguntando qual o nível intelectual que a autora atribui a seus leitores, porque não é possível tratá-los como imbecis assim tão descaradamente. Chega a ser ofensivo.

Os dois continuam trocando confidências íntimas – coisa super normal de acontecer entre pessoas que se conheceram há poucos minutos em cima de um terraço – , e daí pra frente eu não tive condições de terminar a bomba que é esse livro.

Realmente me espanta que algo tão ruim possa ter uma aceitação tão grande, e isso me diz mais sobre a decadência da sociedade e da nossa cena cultural que da autora em si. Acredito que cause tristeza a todos os professores de literatura, que tanto se esforçam em sua profissão, ver as crianças e jovens que foram seus alunos tratando como obra prima um livro que, quando muito, pode servir de apoio de mesa ou de frisbee para o doguinho.

Sei que há uma legião de fãs não apenas dessa obra, mas de outras da autora, porém não pretendo ler mais nada escrito por essa senhora. Alguém que escreveu um livro assim dificilmente conseguiria fazer coisa melhor, salvo na hipótese de receber uma rasante do Espírito Santo (para usar a expressão de um amigo), o que duvido bastante que aconteça.

Apesar de ser muito vendido, minha opinião é que o livro não vale o dinheiro nem o tempo gastos nele.

Agora vou ali tentar me recuperar do abalo psicológico que esse texto péssimo me causou. Espero poder trazer resenhas de algo melhor da próxima vez.

Beijos!

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