Havia anos – se não décadas – que não utilizava o modelo de blog que tanto adorava nos inícios da minha trajetória como dinossaura da internet. Acordei pensando em como esse retorno às origens oferece mais liberdade pra atender os meus objetivos. Sigo ciente, óbvio, que muito pouca gente está disposta a parar para ler algo mais extenso quando se tem acesso massivo a conteúdos curtos, incluindo vídeos de trinta segundos ou menos, sobre absolutamente qualquer assunto. A mim isso é indiferente, porque acredito que devemos prezar mais pela qualidade que pela quantidade (embora esse raciocínio seja praticamente uma heresia em épocas de capitalismo tardio e de consumo de massa).
Para quem gosta de escrever ou de entender as coisas um pouquinho mais a fundo, a limitação de espaço, de formato e de tempo imposta pelas big techs é terrível. Esse padrão adotado é uma maneira de transformar todo e qualquer assunto em algo de baixa complexidade e facilmente palatável aos gostos das multidões. Quanto mais distorcido e simplificado, melhor. Ora, a vida não é de baixa complexidade. O pensamento autônomo tampouco. Para usar um exemplo pessoal, digo que só tive condições de entender certos textos que li depois de uma década, porque, na época do primeiro contato, não dispunha de maturidade nem de categorias cognitivas suficientes para compreender com inteireza os pensamentos extremamente sofisticados dos autores.
Como humanos, nossa maior vantagem evolutiva é nossa inteligência. Por que, então, fazer de tudo para desestimulá-la, tratando todos como se fossem indivíduos intelectualmente ineptos e dependentes de “simplificações” constantes?
Bombardear as pessoas com conteúdos rápidos e rasos é uma excelente maneira de fazer com que não tenham tempo de pensar sobre nada: absorve-se muita informação superficial, mas as condições para reflexão e formação de pensamento crítico ficam praticamente inviabilizadas. Cria-se um exército de zumbis com pendor para as ações impulsivas e para a idolatria a líderes, seja em termos de consumo, seja em termos de ação política. Aliás, nesse modelo de excesso de informação, as duas categorias acabam se misturando de forma que fica impossível separar uma da outra.
Pensar e elaborar – inclusive afetivamente – são atividades que exigem tempo. Quais as causas e efeitos de algo? Como relaciono certos conteúdos às vivências e às categorias mentais que já possuo? Quais os efeitos práticos de certas ações em minha vida? Quais as vantagens e desvantagens de certas escolhas? Será que serei mais feliz andando junto à manada ou meus caminhos me levam a nadar contra a corrente? Todas essas perguntas demandam tempo para que sejam respondidas, tempo esse que, decerto, é bem maior que aqueles milissegundos oferecidos entre uma postagem e outra do Instagram ou do Tik Tok.
Não quero, com esse texto, afirmar que todos devem se desligar do mundo digital ou deletar imediatamente suas contas em redes sociais, pois creio que os leitores são adultos e maduros o suficiente para saber o que é interessante ou não para a própria vida. Eu jamais estaria escrevendo se não confiasse na inteligência de quem dedicou alguns preciosos minutos de seu tempo corrido para vir aqui saber o que tenho a dizer.
Minha intenção é só lançar uma pequenina provocação: será que preciso de tanto conteúdo e de um consumo de informação tão rápido? Será que não se faz necessário um pouco mais de tempo para ler, sentir e refletir sobre o que está lhe sendo oferecido? Será que não seria mais sábio escolher melhor o tipo de material que consome na internet? Estou comprando produtos desnecessários por ser bombardeado por tanta propaganda?
Se vocês ao menos pensarem sobre isso, então meu objetivo já foi cumprido. Fico feliz em ajudar a reconectar as pessoas com o próprio tempo (e cada um tem o seu) e em animá-las a usar o que têm de melhor, que é a inteligência.
Essas foram minhas reflexões de uma sexta-feira ordinária pela manhã, em que acordei mais cedo que o normal e tive tempo para escrever. Desejo a todos um excelente dia independente de quando venham a ler essas linhas. Sigo confiando na inteligência e na capacidade de individuação de quem se permite um tempo para pensar sobre si e sobre o mundo.
Grande beijo!