Há alguns dias, fomos surpreendidos com as declarações de Nivaldo Lima (mais conhecido como Gusttavo Lima, o homem do tchê tchêrerê tchê tchê) de disputar as eleições presidenciais em 2026. A notícia não caiu bem nem entre a esquerda nem entre diversos setores da direita, que, em resumo, consideram a candidatura do cantor como aventureira, leviana e inofensiva.
Para esses setores atrasados da política, qualquer candidatura que não venha pelas formas tradicionais (ou seja: família política, vinculação a algum grupo político já consolidado ou a sindicatos e outras organizações com atuação política, mas não necessariamente eleitoral) é ilegítima e digna de desconsideração. Essa mentalidade, a meu ver, não é apenas pretensiosa, mas também leva a erros de cálculo extremamente grosseiros.
A maioria de quem engrossa as fileiras da chamada “política tradicional” é composta por filhotes da ditadura militar no poder há décadas ou por representantes de dinastias familiares ou partidárias de longa data. Na concepção dessas pessoas, aparentemente, é necessário haver uma espécie de aval tácito por parte da ala da velha política para que alguém possa se candidatar, e esse é o ponto que considero um equívoco, porque não se pode querer entender e navegar na política da década de 2020 com as estratégias dos anos 1970 e 1980, quando concorrer a cargos eletivos, de fato, não era para qualquer um. Alianças partidárias, casamentos entre famílias influentes, indicação de apadrinhados, excesso de “bondades” em ano de campanha eleitoral e distribuição de cargos públicos – são essas as principais armas da política fenecente – não são mais suficientes para convencer o eleitorado em plena era de domínio das mídias sociais e de crise da democracia liberal.
Em um tempo analógico de décadas atrás, poucos tinham acesso a políticos e ao dia a dia da cena política. Pairava sobre os atores políticos um ar de inacessibilidade e de mistério. Hoje, com o filtro das mídias sociais, qualquer um pode dispor de um vislumbre da vida de uma figura política. É até difícil, no período em que vivemos, delimitar a diferença das manifestações midiáticas de um político e de uma celebridade, porque as duas figuras estão cada vez mais se confundindo entre si. Além disso, a possibilidade de criar, no virtual, uma persona totalmente distinta daquela da vida real e direcionada à satisfação de interesses políticos dá a praticamente todos os cidadãos a possibilidade de se lançar em uma empreitada eleitoral sem necessariamente passar pelos filtros tradicionais. Um publicitário competente consegue transformar qualquer um de nós, pessoas comuns, em um páreo eleitoral competitivo se souber manejar a construção de uma imagem adequada e se operar as redes sociais com perícia, o que, obviamente, inclui muito dinheiro gasto com impulsionamento de conteúdo e com cachê para pagar pela compra de seguidores e pela “opinião sincera” de (des?)influencers com alcance de público considerável. Ora, sabemos que, em tese, nossa legislação eleitoral já permitia a candidatura de qualquer cidadão que cumprisse os requisitos mínimos, mas, na prática, essa democratização das candidaturas nunca foi uma realidade. Ao menos não até então.
Enquanto os representantes da ala geriátrica e decadente da política nacional desdenham da candidatura de influencers, artistas ou quaisquer outros que não venham de um contexto mais tradicional, um desconhecido como Pablo Marçal conseguiu, em sua primeira candidatura à prefeitura de São Paulo, um total de 1.719.275 votos. Por muito pouco não competiu em um segundo turno! Sem nunca ter ocupado cargo público e sendo um novato na carreira política, Marçal usou – e muito bem – dois trunfos: sua influência em mídias sociais e o crescente descontentamento da população em geral com a política tradicional, que, a cada dia que passa, parece representar menos os anseios coletivos.
A desesperança causada pela crise de representação aliada à revolta pelas condições materiais cada vez piores torna qualquer promessa de novidade tentadora, ainda que venha de aventureiros ou de gente com caráter tão duvidoso quanto o daqueles que já estão no poder há décadas. Entre um político tradicional, representante de uma fórmula falida, e o carisma de uma celebridade digital que parece (ênfase no verbo parecer) tão próxima de todos, tão mais alinhada com os valores do povo, óbvio que a política tradicional perderá espaço, fazendo de fenômenos como Pablo Marçal cada vez mais comuns. O desespero e o sufocamento trazidos por um velho que se recusa a morrer fazem com que a novidade, seja ela boa ou ruim, tenha um apelo irresistível.
A recusa em validar esses fenômenos a mim só parece mais um sintoma da decadência de boa parte de nossas forças políticas. Vocês podem até não gostar dos influencers e dos aventureiros na cena eleitoral (eu também não gosto), mas negar a capacidade e o potencial que eles têm é de uma imbecilidade e de uma incompetência dignas de quem tem mesmo que ser extirpado do poder pela imensa inépcia.
Nivaldo (Gusttavo) Lima anunciou intenção de se candidatar ao Planalto em 2026. Pablo Marçal também. Vamos ver até que ponto conseguem chegar, mas, particularmente, creio que chegam mais longe do que a maioria imagina.