Fui uma criança nascida na década de 1980 e que, por consequência, teve a oportunidade de viver os primórdios da popularização da internet nos lares brasileiros.
Não fosse pela internet – e isso é uma certeza! – , eu não teria condições de possuir sequer um terço da formação e da bagagem cultural que tenho, porque minha família, como a maioria das famílias neste país, não tinha uma situação financeira que me permitisse abrir novos horizontes viajando, conhecendo museus e frequentando locais de efervescência cultural. Por esse motivo já sou demasiadamente grata a essa ferramenta maravilhosa, que mudou o mundo e, principalmente, que engrandeceu o meu mundo.
Naquela época de explosão de blogs e fotologs (chamávamos de flog ou, jocosamente, de flogão), ainda era possível ter uma experiência minimamente mais original e com algum lastro na realidade concreta. A verdade é que tudo aquilo era grande novidade. Nós mal sabíamos o que estávamos fazendo e seguíamos naqueles mares digitais nunca d’antes navegados com curiosidade e até com certa ingenuidade. No mIRC, acessado preferencialmente após a meia-noite para que só fosse cobrado um pulso telefônico, era possível conversar com pessoas que conhecíamos e interagir com gente estranha que vivia a quilômetros de distância (muitas amizades, pasmem, foram forjadas assim). Era uma época em que demorávamos horas para fazer o download de um humilde arquivo de .mp3, mas a experiência digital ainda era mais autêntica.
Do meio para o final da década de 2000, o modo de acesso à internet começou a ser pautado pelas redes sociais. Primeiro foi o Orkut, já falecido, onde toda uma geração deixava testemonials para seus melhores amigos e fazia parte de comunidades completamente aleatórias como a “Eu odeio acordar cedo”. Naquela época, a fotografia digital e instantânea ainda não estava disseminada como hoje, então a maioria das fotos saía das nossas Sony Cybershot mesmo. Nada de tirar foto de tudo e de todos com o celular e postar em tempo real!
A tecnologia avançou junto com as redes. A derrocada do Orkut e a ascensão do Facebook (nunca gostei muito) e do Twitter (minha rede favorita por quinze anos) ocorreram em sincronia com a popularização da fotografia digital feita com celular. Uma geração inteira já começou a acessar a internet considerando-a como sinônimo de rede social: todo aquele universo desconhecido que encantou e engrandeceu minha geração foi transformado pelas big techs em um mero material de consumo raso, rápido (muito rápido!) e filtrado de acordo com os interesses de grandes corporações.
Foi esse o motivo que me gerou desencantamento com o Twitter, que foi minha rede social por quinze anos, pois era um local em que se privilegiava a escrita – e sempre gostei de escrever, mesmo sendo fotógrafa.
Depois da derrocada do nosso amado Twitter, hoje chamado de X e gerenciado por um dos piores espécimes que a humanidade já conheceu, passei a usar mais o Instagram, porque era uma rede de fotos – e eu gosto de fotografia, vejam bem! – e, de bônus, ainda era possível usar a função de stories como uma espécie de microblog, à la primórdios do Twitter.
De uns meses pra cá, contudo, o ambiente de lá também começou a ficar insuportável. Cada vez mais propagandas indesejadas no meu feed e impulsionamento de conteúdos totalmente contrários ao meu senso estético. Juntem a isso as loucuras sobre política e os delírios de quem cria uma vida falsa no virtual e passa o tempo a postar arremedos toscos de uma narrativa inventada como se fossem verdades absolutas. Ao mesmo tempo, a plataforma me mostrava cada vez menos o conteúdo das pessoas reais, da gente de verdade que eu sigo e cujas expressões no mundo digital gostava de acompanhar. Em resumo, estava cansativo. Nem os memes (sou da galhofa, não nego) estavam mais compensando o acesso àquele ambiente, que se transformou em uma janela imensa para que a loucura, as mentiras e as barbaridades das pessoas acabassem, de alguma maneira, invadindo a sua vida.
A gota d’água foi o anúncio do senhor Zuckerberg sobre a remoção da checagem de fatos em uma plataforma que já é doentia e, ouso dizer, até mesmo psicologicamente radioativa. A tendência é que o ambiente lá piore cada vez mais, e nem me refiro somente à política, mas à turma da alucinação da “vida virtual que criei e na qual exijo que você acredite”.
Prevendo a tormenta e a erupção de chorume que vai sair dali, achei melhor dar um tempo. Como boa dinossaura digital que sou, sei que a internet é maior que as redes sociais, e gostaria muito que outras pessoas – principalmente as boas pessoas – lembrassem disso também. Foi esse o motivo pelo qual decidi ressuscitar o formato de blog na minha vida.
Não prometo postar com uma frequência específica, mas sendo eu alguém que gosta e até precisa escrever, creio que o blog não fique muito tempo sem atualização. Sejam bem-vindos a este espaço sem editorial definido, mas ao menos honesto e sem filtros artificiais ou limite de trinta segundos para tentar resumir absolutamente qualquer assunto.
Às vezes é preciso desacelerar o ritmo para encontramos sentido.
Beijos!